Os Muros do Nosso Tempo

November 11, 2009

 

Em um dia como o de hoje, nas terras do velho continente, os olhares de todo planeta se voltavam para a festa de um povo que agora poderia se chamar de uma nação. Há vinte anos, alemães orientais e alemães ocidentais passavam a se denominar unicamente, “Alemães”. Era a queda do Muro de Berlim. O marco de concreto ruiu, mas nos dias de hoje outras barreiras continuam de pé, se erguendo, e muitas vezes não notamos (ou fingimos não notar).
O objeto da reflexão que faço, na verdade são os muros invisíveis que ainda existem. Ao longo da história, os homens vêm construindo, através de suas atitudes, vários muros e barreiras. O primeiro muro manteve Adão e Eva fora do paraíso. Um muro erguido com as pedras pecado. E o pecado é até hoje matéria prima para a construção de novos muros que se apresentam com vários nomes, como o muro do medo, da indiferença, do preconceito, da inveja, da ganância, dos interesses pessoais e outros.
Mas o pior dos muros do nosso tempo é o muro da intolerância. Seja ela racial, social, sexual, cultural, ambiental, política ou religiosa. Em um mundo onde a palavra da moda é “globalização”, é inadmissível crer que tantos muros ainda sejam levantados. Não podemos aceitar que homens sejam “cercados e isolados”, por causa da cor de pele, da opção sexual, da classe econômica, da religião ou de qualquer outro meio de preconceito.
Há também uma intolerância que os líderes das grandes nações capitalistas querem manter veladas, como a que está causando a lenta morte do nosso planeta, destruindo o meio ambiente, provocando o aumento do aquecimento global e já começando a trazer consequências, algumas catastróficas, para nosso mundo.
Existem muros que nos mesmos criamos entre nós, nas relações de trabalho, em casa, na sociedade como um todo, quando nos isolamos para pensar nas coisas e nos esquecemos de pensar nas pessoas. Esses muros que agora erguemos, tem nos afastado da presença de Deus. Se as barreiras físicas como o Muro de Berlim estão desabando, ainda temos muito que fazer para derrubar os muros invisíveis de nosso tempo.
É hora de destruirmos barreiras , e a exemplo de São Francisco que foi em busca dos sarracenos, devemos construir pontes que possam unir todos os povos, transformando a Terra em um mundo verdadeiramente cristão.
Comecemos agora mesmo a construir nossas pontes, com as pedras da caridade, do perdão, da tolerância, da fé, da solidariedade, da paz, da misericórdia, e, sobretudo, “do Amor”.

 

 

Ao longo da história, os povos menos favorecidos sempre lutaram por uma vida digna, numa guerra inglória contra os ‘poderosos’ que usavam o poder para ganhar vantagem. É uma luta bem antiga, desde os primórdios da humanidade!

Viajando pelo túnel do tempo, no século dezoito, quem não se lembra dos acontecimentos que antecederam a Revolução Francesa, quando um súdito palaciano disse para Maria Antonieta: – Majestade, o povo não tem pão! E ela respondeu: – Que comam brioches. De lá para cá, as coisas não mudaram muito.

A pobreza cresce em todo o mundo e a minoria rica, cada vez mais insaciável e egoísta, neste mundo globalizado, quanto mais tem, mais quer dinheiro e poder. O ser humano vive cada vez mais infeliz, acumulando coisas, fomentando as desigualdades que geram a violência e promovendo a guerra e a destruição neste mundo sem paz!

Karl Marx criou a doutrina comunista, que se revelou uma grande utopia, haja vista os países socialistas, como a União Soviética, por exemplo, que pregavam a igualdade e oportunidade para todos, mas o tempo demonstrou que houve igualdade para o povo, na pobreza, na miséria, enquanto a cúpula do governo enriquecia cada vez mais…
Por isso, o socialismo caiu, porque sempre foi uma coisa enganosa! Dizem que se Marx vivesse hoje, não seria marxista. Por outro lado, o capitalismo não vem cumprindo o que prometeu, ou seja, oportunidade para todos, no exercício da democracia! O que se vê hoje é um capitalismo selvagem e desenfreado, onde o lucro exagerado, a ganância neste mundo globalizado e individualista é o que prevalece, em detrimento dos valores morais e  humanitários!

Como é possível nos dias de hoje, com tanto progresso e evolução tecnológica, existirem povos que vivem em condições sub-humanas, passando fome e todo tipo de privações?!  E o Brasil, infelizmente, não é exceção: há poucos com muito e muitos com tão pouco. Nós, brasileiros, ouvimos há décadas que este é o país do futuro… Que futuro é esse que não chega nunca?!

De Gaulle estava certo quando disse que o Brasil não é um país sério… Ou será que tinha razão Miterrand, quando disse ser este um país surrealista?!

 

Beco Sem Saída

October 20, 2009

 

Texto do Dr. Drauzio Varela

Nos quase dez anos desta coluna, leitor, nunca escrevi sobre política. Adotei essa conduta por reconhecer que há profissionais mais preparados para fazê-lo e por considerar que médicos envolvidos em educação na área de saúde pública devem ficar distantes das paixões partidárias.
No entanto, os últimos acontecimentos de Brasília foram tão desconcertantes e chocaram a nação de tal forma, que ignorá-los seria omissão. No trato da administração pública, chegamos a níveis de desfaçatez e de imoralidade assumida incompatíveis com os princípios éticos mais elementares.

Para os que ganham a vida com o suor do próprio rosto, é revoltante tomar consciência de que parte dos impostos recolhidos ao comprar um quilo de feijão é esbanjada, malversada ou simplesmente desapropriada pela corja de aproveitadores instalada há décadas na cúpula da hierarquia do poder.
Mais chocante, ainda, é a certeza de que os crimes cometidos por eles e seus asseclas ficarão impunes, por mais graves que sejam. Do brasileiro iletrado ao mais culto, todos nós temos consciência de que o rigor de nossas leis pune apenas os mais fracos. É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico parar na cadeia, diz o povo, com toda razão.

Uma noite, na antiga Casa de Detenção de São Paulo, ao fazer a distribuição de um gibi educativo sobre Aids, perguntei, à porta de um xadrez trancado, quantos estavam ali. Um rapaz de gorrinho de lã, curvado junto à pequena abertura da porta, respondeu que eram 17. Diante de minha surpresa por caberem tantos em espaço tão exíguo, começou a reclamar das condições em que viviam. Às tantas, apontou para a TV casualmente ligada no horário polí­tico, no fundo da cela, no qual discursava um candidato:
-Olha aí, senhor, dizem que esse homem levou 450 milhões de dólares. Se somar o que todos nós roubamos a vida inteira, os 7.000 presos da cadeia, não chega a 10% disso.

Essa realidade, que privilegia a impostura e perdoa antecipadamente os deslizes cometidos pelos que deveriam dar exemplo de patriotismo e de respeito às instituições, serve de pretexto para comportamentos predatórios (se eles se locupletam, por que não eu?), gera descrédito na democracia e, muito mais grave, a impressão distorcida de que todo político é mentiroso e ladrão.
Considerar que a classe inteira é formada por pessoas desonestas tem duas consequências trágicas: votar nos que “roubam, mas fazem” e afastar da política cidadãos que poderiam contribuir para o bem-estar da sociedade.

De que adianta documentar os crimes se os criminosos ficarão impunes e retornarão nas próximas eleições ungidos pela sobera nia do voto popular?

Como renovar a classe política num país em que quase dois terços da população não têm acesso à informação escrita, em que empresários financiam campanhas de indivíduos inescrupulosos, comprometidos apenas com os interesses de quem lhes deu dinheiro, e no qual as mulheres e os homens de bem se negam a disputar cargos eletivos, porque não querem ser confundidos com gente que não presta?

É evidente que os políticos brasileiros não são os únicos responsáveis pelo estado a que as coisas chegaram. Antes de tudo, porque muitos são honestos e bem-intencionados; depois, porque o clientelismo que os cerca é uma praga que nos aflige desde os tempos coloniais. Os que se aproximam dos políticos para pedir empregos públicos, nomeações para cargos estratégicos, favores em negócios com o governo ou para oferecer-lhes suborno, por acaso são mais dignos?

Esse é o beco sem saída em que nos encontramos: os partidos aceitam a candidatura de indivíduos desclassificados, os empresários financiam-lhes a campanha (muitas vezes com os assim chamados recursos não declaráveis), o eleitor vota neles porque “não faz diferença, já que todos são ladrões” ou porque podem conceder-lhe alguma vantagem pessoal, a Justiça não consegue nem sequer afastar do serviço público os que são flagrados com as mãos no cofre e, para completar a equação, as pessoas de bem querem distância da política.

A esperança está na prática da democracia. Se a Justiça não pune os que se apropriam dos bens públicos, a liberdade de imprensa é a arma que nos resta, a única que ainda os assusta.”

 

Ilha da Fantasia 2016

October 10, 2009

 

Não sei se estou me tornando anti-patriota ou um brasileiro fora dos padrões, mas não fiquei meio peocupado com a escolha do Rio de Janeiro para as Olimpíadas de 2016.

Não entendi tanta euforia popular, se para a maioria da população, tanto a Copa do Mundo, como as Olimpíadas que serão realizadas no Brasil, serão como se estivessem sendo realizadas no Japão, China, Espanha, pois o povo vai assistir essas competições do mesmo modo que assistiram às anteriores pela televisão. A única diferença é que alguns assistirão numa televisão de LCD de 32 polegadas compradas em vinte e quatro vezes. Ah, entendi sim, a elagria do povo, afinal vivemos em um país onde os politicos roubam, mas o que importa, desde que não mexam no carnaval e no futebol. Tudo bem. Dêem o pão e circo ao povo e tudo fica bem.

Ah, um consolo, aquela população mais pobre que mora no Rio de Janeiro poderá assistir a Maratona e ver de longe a competição de vela, isto é senão interditarem as ruas e as praias em nome da segurança. Também restará ao povo, o consolo de ver os grandes atletas dentro dos ônibus ou esperar por eles nos aeroportos, agora rezem para eles não saírem por outro local. Ou alguém acredita que os ingressos dos jogos da Copa do Mundo e das principais modalidades das Olimpíadas serão acessíveis ao “povão”?

Mas tem uma pequena, muito pequena, parcela da população que irá se beneficiar com esses eventos. A começar, pelo quem sabe “ex” ou futuro presidente Lula, que com certeza, fará tudo para voltar às mordomias e viagens inerentes ao cargo em 2014. Afinal, é mais uma “façanha” para o presidente se vangloriar, afinal, nunca na história do Brasil, um presidente conseguiu trazer eventos tão importantes. Os políticos, que terão a partir de agora sete anos de negociatas com os empreiteiros. E os empreiteiros e as construtoras que nunca na história deste país, ganharão tanto dinheiro com as obras superfaturadas, a maioria realizada através de licitações não tão transparentes. E alguém tem dúvida quais são as construtoras que irão vencer os processos licitatórios? Se tiverem, comparem a lista dos maiores doadores das campanhas dos politicos para eleições de 2010 com a lista de empresas que vencerão as licitações para construção das obras da Copa e das Olimpíadas, qualquer semelhança, não será mera coincidência. As emissoras de televisão, que nunca na história deste país, ganharão tanto dinheiro em contrato de publicidade.

O governo diz que as Olimpíadas gerarão milhares de empregos diretos e indiretos. Não discordo, mas a construção de hospitais, escolas, casas que poderiam ser construídos com o dinheiro que será gasto para a realização das Olimpíadas também gerariam milhares de postos de trabalhos “permanentes” para médicos, enfermeiros, professores, trabalhadores da construção civil e profissionais de todas as áreas.

O “nosso” presidente sabe muito bem quais são as prioridades do país. Mas o que dar mais visibilidade a ele no cenário internacional: investir em habitação, saúde, educação, infra-estrutura em um país em que pessoas morrem sem ter acesso a um sistema de saúde decente, onde dezenas de milhares de pessoas não tem um teto onde morar, um país que tem milhões de analfabetos ou bancar projetos faraônicos, como realizar uma Copa do Mundo ou uma Olimpíadas? A resposta é fácil quando temos na presidência, um sujeito que tem um ego nunca antes visto na história deste país.

Não sou um anti-Simão Bacamarte, personagem patriota do livro Alienista de Machado de Assis, nem tão pouco sou contra competições esportivas. Mas é dificil apoiar qualquer projeto de grande vulto, em um país onde nosso dinheiro se esvai nos ralos da corrupção. É dificil acreditar na seriedade das aplicações dos recursos nesses dois mega-eventos, em um país que até hoje o Tribunal de Contas da União encontra indicios de irregularidades no orçamento do Pan Americano de 2007. Vejam abaixo um pequeno exemplo de como um gasto em um serviço simples, teve seu valor acrescido em 472 vezes:“ …despesas como o custo da implantação do sistema de credenciamento do PanAmericano de 2007, orçado originalmente em R$ 55 mil, mas que acabou representando uma despesa de R$ 26,7 milhões aos cofres públicos. Atente bem para esta informação do TCU: “dinheiro público”, isto é, o meu, o seu, o nosso dinheiro.

Como um governo pensa em construir megas ginásios, piscinas, estádios em um país em que 73% das escolas públicas não possuem sequer espaços para práticas desportivas? Apontam a China, como um exemplo que deu certo quando sediou as Olimpiadas, só que, ao contrário do Brasil, a China já era uma potência olimpica quando sediou o evento, já era uma potência econômica, já investia forte na prática esportivas em suas escolas, faculdades e lá, ao contrário daqui, a corrupção não está tão fortemente impregnada.

O país e principalmente o Rio de Janeiro em 2016 viverão meses de Ilha da Fantasia, transportes de qualidade, ruas limpas, sem mendigos, Exército nas ruas. As nossas autoridades fazendo pacto de boa vizinhança com os bandidos, traficantes, para que estes deem um tempo em suas atividades ou migrem suas ações para lugares mais distantes. Ou alguém acredita que em 6 anos, todos esses problemas serão resolvidos?

Que venham a Copa do Mundo e as Olimpiadas. Dos camarotes luxuosos para o Lula, políticos, empreiteiros, chefe de tráfico de drogas. Traficantes, sim, ou você acha que no “pacto de paz olimpico”, entre as concessões das autoridades, não estarão incluídos camarotes paras aqueles assistirem aos principais eventos. Quanto ao restante do povo é melhor comprar logo a televisão de 32 polegadas, talvez até começar a Copa, você já tenha quitado as não-sei quantas prestações.