O Espelho e o Imperador

April 13, 2007

 

Colaboração: Arnaldo Jabor

 

Não sei por que, mas sempre que desejo meditar, venho aqui para esse enorme banheiro da Casa Branca, com espelhos em paralelo, que me multiplicam ao infinito. Preciso me ver refletido, milhões de Bushes, como um exército de “eus”.

Aqui me sinto calmo. Gosto de ficar nu, olhando-me de todos os ângulos. Ergo a mão, milhões de mãos…Viro de bunda, milhões…Gosto de gritar: Kiss my asses! (Danem-se!”)…Ah, ah… Estou vivendo os melhores momentos da minha vida…Sinto-me potente. Vou derrotar todos os meus inimigos. Eles não são somente o Bin Laden, nem o Mahmoud Ahmadinejad. Meus inimigos são também aqueles que me humilharam quando eu era o Little Bush, o burrinho, que só tirava zero na faculdade…Eu queria ser livre, leve e solto, feito meus colegas dos anos 60, doidões, que fumavam maconha contra o Vietnã. Eles gostavam dos Rolling Stones, e eu, do Ray Conniff, mas qual o problema? Eu queria desbundar feito eles, mas meu pai não deixava e, aí, eu só enchia a cara de Jack Daniels e atropelava latas de lixo no Texas, onde fui preso por alcoolismo. Eu bebia para diminuir a angústia, pois papai sempre preferiu o Jed…Meus inimigos são também aqueles intelectuais de bosta que riam de meus planos para política da América, só porque eu pertencia a Skull and Bones Fraternity, uma espécie light da gloriosa Ku Klux Klan. Eram uns intelectuais babacas, puxa-sacos de europeus, fascinadinhos pela França e Itália. Eu nunca fui a esses lugares na minha juventude…Para quê? Para enfraquecer a minha fé na América? Diziam que eu era burro…Por isso, uso sempre essa expressão de seriedade, como se eu tivesse pensando em coisas profundas sobre o mundo. Cara 1: preocupação com o “mundo livre”. Cara 2: “caubói vingativo”.

Chamem-me de Forest Gump, mas só eu sei da grandeza insuspeitada do homem médio. Há um bom senso profundo no republicano radical como eu. Um amor as coisas óbvias, à família gordinha, mamãe e filhinhos de olhar inocentes, mas atentos ao “Mal”, com seus hambúrgueres, o bacon e a root beer, o barbecue, o futebol americano, o charme da old religion, a country music, o horror ao estrangeiro, o amor à linha reta, ao princípio, o meio e o fim de tudo, a valentia sem resolver problemas, sem atentar para complexidades afrescalhadas, resolver, arrasar, desde os índios até o Noriega. Assim fizemos a maior nação do mundo - e não foi com dúvidas européias, não; foi com a crueldade em nome da bondade, com pureza de self interest, da conquista de mercados; assim, criamos esse grande país, com fé em Deus, na fidelidade à pátria de Cristo e na fidelidade conjugal, e não nas “chupetinhas” daquele canalha do Clinton.

Tenho orgulho de ser um Forest Gump, pois ele tem a sabedoria da estupidez, apureza dos imbecis e da santidade da burrice. Os gumps é que fizeram a maior nação do mundo, sem se dobrar a multilateralismos de bosta dos europeus; isso é coisa de quem não tem exércitos. Querem nos controlar com papos de ecologia, de ONU, de Tribunal Penal Internacional para nos julgar…Ninguém vai nos julgar mais. Esses intelectuais de quinta querem que eu deixe as maiores reservas de petróleo do mundo com o Iraque? Tenho de atender ao Dick Cheney, meu velho petroleiro amigo dos que nos financiaram…Tenho de antender também nossos gênios militares, que nos fazem invencíveis…Há coisa mais bela que um avião Stealth, bombas inteligentes, a aerodinâmica dos jatos no céu, balas tracejantes e nuvens de fogo? Eu não lutei no Vietnã, papai arranjou-me um pistolão da Guarda Costeira, mas eu acho bela a guerra…Ahhh….a beleza do heroísmo, até memso a beleza do martírio dos milhares de jovens que voltarão mortos com funerais e salvas de canhão. Eu sou o verdadeiro americano, sem frescuras importadas. A Europa nos despreza, e eu vou ficar puxando o saco daqueles babacas? Museuzinhos, catedraizinhas, filosofias, artezinhas, um papo de transcedência, de tradição milenar. É tudo bulshit; eu acredito é no mercado, preço, lucro e utilidade.

Humanismozinho é coisa de viados; humanismo é mercado…Tem cabimento a maior nação do mundo se igualando àqueles idiotas da ONU: Nigéria, Costa Rica, Brazil? Ora, give me a break. Não existe essa tal de “política internacional”; só interesses internos e privados, como disse aquela crioula, a Condoleesa Rice. A crioula é fera…ah, ah…tenho até que segurar ela…senão ela taca fogo em tudo…E ainda tenho que aturar aqulele Collin Powell, metido a pombinha…Tudo bem, tive que botar esses afro-negrões no poder para poder mostrar que não sou racista, apesar de ter torrado vários na cadeira elétrica no Texas…ah, ah… um crioulo falcão e um pombinha; um lambe e outro esfola.

Mas eu vou criar um mundo maravilhoso, tenho certeza. Já vejo os árabes tremendo de medo de mim, o petróleo jorrando nos postos de gasolina, barata, abastecendo o ritimo do sonho americano, a Europa toda mudada, os Estados sem exércitos fortes, os Estados sem inicitiva, simbólicos, como monumentos vazios de outros tempos. Já vejo uma grande economia sem governos, todos dominados por nós, a América Latina dominada, tudo dominado com a grande Alca regendo aqueles macacos. Só restará um grande mercado limpo, sem países reais. Quero voltar a América para trás, antes dos hippies, dos negros e dos direitos civis…Então, nossa pátria será a nação indispensável, como nossos céus cobertos por um grande guarda-chuva de satélites de “guerra nas estrelas”, mísseis batendo no teto, com estrelas chinesas e russas, com nosso povo comendo hambúrgueres e olhando para cima, rindo dos foguetes domados. enorme E, se a barra pesar muito, pau nos chineses que virão, e nos russos e árabes também! Será o Juizo Final, mas só para eles. Nós ficaremos sózinhos na América, como eu aqui nesse banheiro de espelhos…Já imagino Meca derretendo, com aquela praça cheia de árabes sujos.

Ah…ah…eu posso apertar um botão e acabar com essa porra! Viva eu! Sempre que penso nisso, tenho uma ereção…Meu Deus…o melhor afrodisíaco é a nuvem atômica! God! São milhões de pintinhos de Bushinhos se erguendo gloriosamente nos espelhos infinitos!…Aleluia! Finalmente, eu sou feliz!…

Valeu Jabor.