Inquilinos
May 2, 2007
Texto de Luís Fernando Veríssimo, extraído do Jornal A Gazeta:
Ninguém é responsável pelo funcionamento do mundo. Nenhum de nós precisa acordar cedo para acender as caldeiras e checar se a Terra está girando em torno do seu próprio eixo na velocidade apropriada, e em torno do Sol de modo a garantir a correta sucessão das estações. Como num prédio bem administrado, os serviços básicos do planeta são providenciados sem que se enxergue o síndico – e sem taxa de administração. Imagine se coubesse à humanidade, com sua conhecida tendência ao desleixo e à improvisação, manter a Terra na sua órbita e nos seus horários, ou se – coroando o mais delirante dos sonhos liberais – sua gerência fosse entregue a uma empresa privada, com poderes para remanejar os ventos e suprimir correntes marítimas, encurtar ou alongar dias e noites e até mudar de galáxia, conforme as conveniências de mercado, e ainda por cima sujeita a decisões catastróficas, fraudes e falência.
É verdade que, mesmo sob o atual regime impessoal, o mundo apresenta falhas na distribuição dos seus benefícios, favorecendo alguns andares do prédio metafórico e martirizando outros, tudo devido ao que só pode ser chamado de incompetência administrativa. Mas a responsabilidade não é nossa. A infra-estrutura já estava pronta quando nós chegamos. Apesar de tentativas como a construção de grandes obras que afetam o clima e redistribuem as águas, há pouco que podemos fazer para alterar as regras do seu funcionamento.
Podemos, isto sim, é colaborar na manutenção da Terra. Todos os argumentos conservacionistas e ambientalistas teriam mais força se conseguissem nos convencer de que somos inquilinos no mundo. E que temos as mesmas obrigações de qualquer inquilino, inclusive a de prestar contas por cada arranhão no fim do contrato. A escatologia cristã deveria substituir o Salvador que virá pela segunda vez para nos julgar por um Proprietário que chegará para retomar seu imóvel. E o Juízo Final, por um cuidadoso inventário em que todos os estragos que fizemos no mundo seriam contabilizados e cobrados.
– Cadê a floresta que estava aqui? – perguntaria o Proprietário. – Valia uma fortuna.
– Este rio não está como eu deixei…E, depois de uma contagem minuciosa:
– Estão faltando cento e dezessete espécies.
A Humanidade poderia tentar negociar. Apontar as benfeitorias – monumentos, parques, áreas férteis onde outrora existiam desertos – para compensar a devastação. O Proprietário não se impressionaria.
– Para o que eu quero o Taj Mahal? Sete Quedas era muito mais bonita.
– E a catedral de Chartres? Fomos nós que construímos. Aumentou o valor do terreno em…
– Fiquem com todas as suas catedrais, represas, cidades e shoppings. Quero o mundo como eu o entreguei.
Não precisamos de uma mentalidade ecológica. Precisamos de uma mentalidade de locadores. E do terror da indenização.

May 2, 2007 at 5:07 pm
Mas tem gente que se acha dono da terra .
Como explicar que se a terra é de todos , e não ha moradia suficiente para todos, moradia descente é claro .
Os estragos que fizemos e estamos fazendo será com certeza cobrado de todos nós .
Pense bem , o que mais produzimos todos os dias é o lixo, no entannto quando colocamos o lixo para que seja recolhido pelos caminhões , nem queremos saber ou pensar para onde vai o lixo.
Ao darmos descarga no vaso sanitário, será pensamos para onde vai os dejetos ? No entanto quando passamos por um rio mal cheiroso como o tietê por exemplo , sera que lembramos de que quando damos a descarga no banheiro é exatamente para o rio onde os dejetos estão indo ?
Será que ao andarmos de carro pelas ruas , não abrimos a janela e jogamos latas , papéis ou qualquer coisa que seja na rua, nos estamos colaborando para enchentes que vem ocorrendo no mundo todo, já não basta o clima estar degradado justamente por nossas ingerências nesse mundo. Onde estamos praticamente vivendo cada um por sí ?
É para se pensar no que estamos fazendo com a nossa morada, se todas as pessoas pensassem no próximo o mundo seria um pouco melhor com certeza .
Abraços , grande Julinho Mazzei
Reinaldo Lima
May 2, 2007 at 9:50 pm
O texto, na sua ironia é sábio e de certa forma contundente, Julinho.
O que mais me chateia no entanto é que pouca gente,lê e interpreta textos assim. A maior parte das pessoas que tem consciência sobre o que está acontecendo com o planeta nada faz para mudar o estado das coisas.
É triste, mas ainda muito pouca gente tem feito algo para evitar que o planeta megulhe de uma vez neste caos todo! Governantes, trabalhadores, estudantes, formadores de opinião.. alguns com mais, outros com menos vontade até fazem algo. Mas é pouco.
Quando se vê a grande massa, deseducada e ignorante sujando, poluindo, estragando nossa Terra e debochando, rindo e se divertindo ao dar de ombros para um texto como este, é pra ficar triste!
Mas o proprietário é sábio e já deve ter previsto isso td isso quando elaborou o contrato de locação….
May 22, 2007 at 11:27 pm
O ser humano, único animal que possui “inteligência” faz de seu “Habitat” planeta terra. Mas ele esqueçe que neste mundo existe uma grande diversidade de espécies animais e vegetais, por equanto, sente-se “proprietário” e não um inquilino a mais dentro deste contexto.
Julinho este texto é imprecindível, sua divulgação é suma importância , para pensaramos melhor o que estamos fazando com o nosso lar ( planeta terra).