Sentado na Janela

May 24, 2007

 

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Era criança quando, pela primeira vez, entrei em um avião. A ansiedade de voar era enorme. Eu queria me sentar ao lado da janela de qualquer jeito, acompanhar o vôo desde o primeiro momento e sentir o avião correndo na pista cada vez mais rápido até a decolagem. Ao olhar pela janela via, sem palavras, o avião rompendo as nuvens, chegando ao céu azul. Tudo era novidade e fantasia.

O tempo foi passando, eu creci, mudei de país, a correria, o trabalho e as viagens aumentaram. Voar não era mais novidade. Eu já não fazia mais questão de me sentar à janela, nem mesmo de ver as nuvens, o sol, as cidades abaixo, o mar ou qualquer paisagem que fosse. Perdi o encanto. Pensava somente em chegar e sair, me acomodar rápido e sair rápido. As poltronas do corredor agora eram exigência. Mais fáceis para sair sem ter que esperar ninguém, sempre e sempre preocupado com a hora, com o compromisso, com tudo, menos com a viagem, com a paisagem, comigo mesmo.

Por um desses maravilhosos acasos do destino, estava eu louco para voltar de São Paulo numa tarde chuvosa, precisando chegar em Curitiba o mais rápido possível. O vôo estava lotado e o único lugar disponível era uma janela, na última poltrona. Sem pensar concordei de imediato, peguei meu bilhete e fui para o embarque. Embarquei no avião, me acomodei na poltrona indicada: a janela. Janela que há muito eu não via, ou melhor, pela qual já não me preocupava em olhar. E, num rompante, assim que o avião decolou, lembrei-me da primeira vez que voara.

Senti novamente e estranhamente aquela ansiedade, aquele frio na barriga. Olhava o avião rompendo as nuvens escuras até que, tendo passado pela chuva, apareceu o céu. Era de um azul tão lindo como jamais tinha visto. E também o sol, que brilhava como se tivesse acabado de nascer. Naquele instante, em que voltei a ser criança, percebi que estava deixando de viver um pouco a cada viagem em que desprezava aquela vista. Pensei comigo mesmo: será que em relação às outras coisas da minha vida eu também não havia deixado de me sentar à janela, como, por exemplo, olhar pela janela das minhas amizades, do meu casamento, do meu trabalho e convívio pessoal?

Creio que aos poucos, e mesmo sem perceber, deixamos de olhar pela janela da nossa vida. A vida também é uma viagem e se não nos sentarmos à janela, perdemos o que há de melhor: as paisagens, que são nossos amores, alegrias, tristezas, enfim, tudo o que nos mantém vivos.

Se viajarmos somente na poltrona do corredor, com pressa de chegar, sabe-se lá aonde, perderemos a oportunidade de apreciar as belezas que a viagem nos oferece. Ademais, pode ser que ao descer do avião da vida já não encontremos ninguém a nossa espera.

Pense nisso!

Se você também está num ritmo acelerado, pedindo sempre poltronas do corredor, para embarcar e desembarcar rápido e ganhar tempo, pare um pouco e reflita sobre aonde você quer chegar. A aeronave da nossa existência voa célere e a duração da viagem não é anunciada pelo comandante. Não sabemos quanto tempo ainda nos resta. Por essa razão, vale a pena sentar próximo da janela para não perder nenhum detalhe. Afinal, a vida, a felicidade e a paz são caminhos e não destinos.

 

6 Responses to “Sentado na Janela”

  1. Ismar Says:

    Bom dia Julinho,

    Maravilhosa sua história, seu pensamento, sua viagem da vida, realmente temos que parar para efletir sobre isso. Hoje em dia só trabalho e deveres administrativos nos deixam distante da janela da vida, dos amigos, praticamente é uma luta constante todos os dias e não paramos para olhar para a janela e rever a nossa história de vida e reviver tudo novamente dentro do possível, rever as grandes lutas que tivemos para chegar onde estamos, rever aquele velho amigo tão distante e assim por diante, temos que sentar na janela todos os dias.

    Grande abraço, e obrigado mais uma vez! estamos juntos nessa viagem.

    Ismar

  2. Eraldo Ramos Says:

    Grande reflexão Reverendo Julinho..!!!
    É o tipo de texto que eu gosto de ler aos poucos como
    quem degusta um bom vinho…

    Eraldo Ramos

  3. Sergio Matubara Says:

    Meu caro Prof. Julinho

    Qdo abri esse texto, eu estava ouvindo uma bela interpretação de “Amazing Grace” por Lara Fabian…

    Nem preciso dizer o q achei dele né??

    Deus abençoe os homens … q são cegos.

    Obrigado!

    Matu

  4. mfernanda Says:

    Querido Mazzei,

    Estava com saudades do seu blog…charmosíssimo e, sempre recheado de novidades.
    É uma pena que eu não esteja equipada à altura dos seus mixes sensacionais. Não preciso ouvir para saber.
    Retornei já sorvendo esta maravilha de história que vc expressou através do conto, A Janela.
    Parabéns, Julinho. Você é um escritor talentoso!
    Vê se não some, hein?
    Estás me devendo a sua compania, para um rock and roll básico no Matsuri.
    Um beijão,

    Maria Fernanda

  5. Luiz Paulo Says:

    Eu simplesmente me encanto com as coisas que leio aqui.
    Textos que são verdadeiros confortos, carinhos, agrados para o coração, para o espírito enfim!!
    E hoje não foi diferente.. andei de avião… viajei até a minha infância.. juventude… enfim, me transportei no tempo e me alegrei demais com o que sentí!
    Ando cada vz mais de olhos nos detalhes que fazem o todo… acho que te ler, é algo de sintonia mesmo!
    Costumo dizer que a felicidade é meu combustível… o Destino é algo maior! E que paz é AMOR.

    Parabéns Julinho! Sucesso e mta luz sempre!

  6. D.J. JR Says:

    Good, vc poderia colocar music from 80´s in radio mix e não music close

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