A Teoria do Canalha
June 26, 2007
Como um grande fã do mestre Jabor o Furreca traz o texto dele publicado hoje no Caderno 2 do Estado e enviado pelo amigo Caio Druso…
“Eu não sou um canalha; eu sou o canalha. Tenho orgulho de minha cara-de-pau, de minha capacidade de sobrevivência, contra todas as intempéries. Enquanto houver 20 mil cargos de confiança no País, eu estarei vivo, enquanto houver autarquias dando empréstimos a fundo perdido, eu estarei firme e forte. Não adianta as CPI’s querendo me punir. Eu saio sempre bem. Enquanto houver este bendito código de processo penal, eu sempre renascerei como um rabo de lagartixa, como um retrovírus, fugindo dos antibióticos. Eu sei chorar diante de uma investigação, ostentando arrependimento, usando meus filhos, pais, pátria, tudo para me livrar. Eu declaro com voz serena: ‘Tudo isso é uma infâmia de meus inimigos políticos. Eu não me lembro se essa loura de coxas douradas foi minha secretária ou não. Eu explico o Brasil de hoje. Eu tenho 400 anos: avô ladrão, bisavô negreiro e tataravô degredado. Eu tenho raízes, tradição. E eu sou também pós-moderno, sou arte contemporânea: eu encarno a real-politik do crime, a frieza do Eu, a impávida lógica do egoísmo.
‘ No imaginário brasileiro, eu tenho algo de heróico. São heranças da colônia, quando era belo roubar a Coroa. Só eu sei do delicioso arrepio de me saber olhado nos restaurantes e bordéis. Homens e mulheres vêem-me com gula: ‘Olha, lá vai o canalha…!’ - sussurram fascinados por meu cinismo sorridente, os maîtres se arremessando nas churrascarias de Brasília e eu flutuando entre picanhas e chuletas, orgulhoso de minha superioridade sobre o ridículo bom-mocismo dos corretos. Eu defendo a tradição endêmica da escrotidão verde e amarela. Sem mim, ninguém governa, sem uma ponta de sordidez, não há progresso.
Eu criei o Sistema que, em troca, recria-me persistentemente: meus meneios, seus ademanes, meus galeios foram construindo um emaranhado de instituições que regem o processo do País. Eu sou necessário para mantê-las funcionando. O Brasil precisa de mim.
Eu tenho um cinismo tão sólido, um rosto tão límpido que me emociono no espelho; chego a convencer a mim mesmo de minha honestidade, ah! ah!… Como é bom negar as obviedades mais sólidas e ver a cara de impotência de inquisidores. E amo a adrenalina que me o acende o sangue quando a mala preta voa em minha direção, cheia de dólares, eu vibro quando vejo os olhos covardes dos juízes me dando ganho de causa, ostentando honestidade, fingindo não perceber minha piscadela maligna e cúmplice na hora da emissão da liminar… Adoro a sensação de me sentir superior aos otários que me compram, aos empreiteiros que me corrompem, eles humilhados em vez de mim.
Eu sou muito mais complexo que o bom sujeito. O bom é reto, com princípio e fim; eu sou um caleidoscópio, uma constelação. ’Sou mais educativo. O homem de bem é um mistério solene, oculto sob sua gravidade, com cenho franzido, testa pura. O honesto é triste, anda de cabeça baixa, tem úlcera. ’Eu sou uma aula pública. Eu faço mais sucesso com as mulheres. Elas se perdem diante de meu mistério, elas não conseguem prender-me em teias de aranha, eu viro um desafio perpétuo, coisa que elas amam em vez do bondoso chato previsível. A mulher só ama o inconquistável. Eu conheço o deleite de vê-las me olhando como um James Bond do mal, excitadas, pensando nos colares de pérolas ou nos envelopes de euros. Eu desorganizo seu universo mental, muitas vezes elas se vingam de mim depois, me denunciando - claro -, mas só eu sei dos gritos de prazer que lhes proporcionei com as delícias do mal que elas adivinhavam. Eu fascino também os executivos de bem, porque, por mais que eles se esforcem, competentes, dedicados, sempre se sentirão injustiçados por algum patrão ingrato ou por salários insuficientes. Eu, não; eu não espero recompensas, eu me premio. Eu tenho o infinito prazer do plano de ataque, o orgasmo na falcatrua, a adrenalina na apropriação indébita. Eu tenho o orgulho de suportar a culpa, anestesiá-la - suprema inveja dos neuróticos. Eu sempre arranjo uma razão que me explica para mim mesmo. Eu sempre estou certo ou sou vítima de algum mal antigo: uma vingança pela humilhação infantil, pela mãe lavadeira ou prostituta que trabalhou duro para comprar meu diploma falso de advogado.
Eu posso roubar verbas de cancerosos e chegar feliz em casa e ver meus filhos assistindo desenho na TV. Eu sou bom pai e penso muito no futuro de minha família, que, graças a Deus, está bem. Eu sou fiel a uma mulher só, que vai se consumindo em plásticas e murchando sob pilhas de botox, mas nunca a abandono, apesar das amantes nas lanchas, dos filhos bastardos.
Eu não sou um malandro - não confundir. O malandro é romântico, boa-praça; eu sou minimalista, seco, mais para poesia concreta do que para o samba-canção. Eu tenho turbocarros, gargalho em Miami e entendo muito de vinho. Sei tudo. Ultimamente, apareceram os canalhas revolucionários, que roubam ‘em nome do povo’. Mas eu não. Sou sério, não preciso de uma ideologia que me absolva e justifique. Não sou de esquerda nem de direita, nem porra nenhuma. Eu sou a pasta essencial de que tudo é feito, eu tenho a grandeza da vista curta, o encanto dos interesses mesquinhos, eu tenho a sabedoria dos roedores.
Eu confio na Justiça cega do País, no manto negro dos desembargadores que sempre me acolherão. Eu sou mais que a verdade; eu sou a realidade. Eu acho a democracia uma delícia. Eu fico protegido por um emaranhado de leis malandras forjadas pelos meus avós. E esses babacas desses jornalistas pensam que adianta essa festa de arromba de grampos e escândalos. Esses shows periódicos dão ao povo apenas a impressão de transparência, têm a vantagem de desviar a atenção para longe das reformas essenciais e mantêm as oligarquias intactas. Este País foi criado na vala entre o público e o privado. Florescem ricos cogumelos na lama das maracutaias. A bosta não produz flores magníficas? Pois é. O que vocês chamam de corrupção, eu chamo de progresso. Eu sou antes de tudo um forte!”
Arnaldo Jabor








June 26, 2007 at 4:27 pm
Pela segunda vez lendo o Jabor
que tanto adoro, aqui no seu
blog… pela segunda vez me pego
pensando na avalanche mental que
deve consumir o autor quando ele
decide colocar em palavras o que
sente por este Brasil nosso de
cada dia. Imagino ele escrevendo
enquanto sente, como picadas de
agulha, torturantes agulhas sendo
fincadas na sua pele, a realidade
deste País sem jeito, nem conserto.
Ele consegue perceber de forma
aguda aquilo que nós todos vemos e
sabemos sobre nossa terra mãe, mas
anestesiados sequer pensamos em
discutir. Antigamente, jornalistas
denunciavam, eram destemidos!!
Hj em dia é esta sonolência…
Mas enfim o pior é ver que cada vz mais
este é o retrato da alma de muitos
brasileiros e do País em sí.
Falar que o voto pode mudar algo é
antigo, ultrapasado! A única coisa
que MUDARIA algo, seria uma
reforma educacional. E uma limpeza
geral… ou seja, se mudar será
sempre pra pior pq reforma alguma
acontecerá! Deve ser por isso que o
Jabor (d)escreve a atualidade com
tamanha inteligência, clareza e fúria!
Valeu pelo texto Julinho!!!
June 27, 2007 at 8:08 am
Uma coisa é certa, tudo que nasce morre um dia, pode demorar mas morre e tudo que é ruim acaba também e como se diz “a esperança é a última que morre”, tenho esperança que vai melhorar muita coisa, mas não como deveria pois com dinheiro se pode comprar tudo inclusive o caráter de uma pessoa, os futuros políticos tem que ter coragem para não se vender, mas como é fácil se tornar um político, dependendo da pessoa se ela sempre foi pobre um dia ela vai robar muito pois existe meios e formas para agir quando se tem poder nas mãos.
Realmente ficamos pensando como que um cara como o Jabor pensa na hora de escrever, como ele sente as palavras surgindo na ponta da língua para depois formar todo esse emaranhado de informações que por mais que seja um simples relato mesmo assim compromete sua imágem perante a mídia, pois não se pode falar a verdade, não podemos mostrar os erros e os podres daqueles que se alimentam da fraqueza e ingenuidade dos pobres brasileiros.
Triste é pouco mas é assim que vivemos no Brasil, mas como eu disse no início, um dia tudo acaba e a renovação será a solução para futuras melhorias.
Obrigado Julinho mais uma vez por essa matéria.
Ismar
June 30, 2007 at 3:24 am
Fantástico!!! Não estou entre os que gostam de tudo o que ele escreve,mas essa foi GENIAL!!!!!!!!!
September 26, 2007 at 9:52 am
Arnaldo Jabor representa, em minha opinião, inconformidade total com o ser humano. Seus textos estão cobertos de dor, de desesperança, da certeza que o ser humano não tem saida. É o libelo de um ateu, com propriedade extraordinária de (d)escrever sua dor e daqueles que - movidos pela certeza que a vida começa e acaba aqui - jamais terão a alegria de perceber que a bondade, a solidariedade existem. Seu cinismo gigantesco angaria simpatia dos cínicos, dos que perderam a capacidade da esperança, dos que não acreditam no ser humano como criação de Deus a caminho da perfectibilidade. Por ter vivenciado um dos momentos históricos mais conturbados da nação desde o suicídio de Vargas, encara a política como algo extremamente danoso, como se tudo fosse canalhice, como se não houvesse ninguém com grandeza para lutar contra as injustiças. Se é verdade que as classes dominantes transformaram o Brasil num pais africano até 2002, corrompendo e se deixando corromper para manutenção de seus privilégios, não consegue libertar-se de seu pensamento egocentrico ao entender que continuamos no mesmo caminho de dantes. Todavia, também apresenta momentos de lucidez ao apontar a sabujice de muitos que pedem moralidade mas esquecem o que é ética. Daqueles que pagam salários de fome, roubam a merenda escolar mas se vangloriam de proporcionar educação paga nos melhores colégios para seus filhos. Daqueles que vivem de apontar o erro dos outros, mas incapazes de um ato de fraternidade.