Preconceito
February 2, 2008
A mais brilhante definição de preconceito de que já soube veio-me de Voltaire, em seu Dicionário Filosófico: “preconceito é uma opinião sem julgamento”, ou seja, adquirimos uma opinião qualquer, não verificamos sua razão de ser e passamos a acreditar naquilo, simplesmente. Voltaire disse isto por volta de 1760. Passados mais uns cento e oitenta anos, em meados do século vinte Einstein lastimou que “hoje, infelizmente, é mais fácil partir um átomo ao meio do que quebrar um preconceito”. Pois, somando-se as coisas, conclui-se que preconceito deve realmente ser algo indestrutível, ou perto disso.
Tão indestrutível, que o preconceito dos nazistas contra os judeus ainda perdura no coração de muita gente, mesmo após tanta propaganda contrária. E dos judeus contra os árabes, e dos árabes contra os judeus, e dos brancos contra os negros, e dos negros contra os brancos, e dos que são contra os mulatos, contra os cafusos, os mamelucos, os letrados, os iletrados, as mulheres, os homens, os advogados, os políticos, os publicitários, os jornalistas, os nordestinos, os açougueiros, os torneiros-mecânicos (sim, porque, sem dúvida, haverá alguém cultivando preconceitos contra açougueiros e torneiros-mecânicos), os velhos, as crianças, os gays e o escambau. Existe preconceito até contra o escambau.
Assim como não tem fronteiras e nem escolhe raça, faixa etária ou sexo, o preconceito também não escolhe porta-vozes ou causas. Ele existe dentro de todos nós, tem diferentes intensidades. Não tem função nem propósito. Apenas existe, desde que o ambiente seja favorável ao desenvolvimento de um raciocínio qualquer, um sofisma destes capazes de fazer-nos acreditar no ilógico. Algo como a prestidigitação. Nada além de opiniões sem julgamento.
Nunca vi alguma pesquisa sobre onde o preconceito ocorre com maior ou menor incidência. Talvez os americanos, que adoram pesquisar de tudo, já a tenham feito, mas nunca ouvi falar dela. Mas também não é difícil concluir que o preconceito não é privilégio de um ou outro segmento da população. Nada disso. Ele existe em todo lugar, em todo tempo, em todo tudo! Tem em casa, tem no futebol, tem nas estações de trem.
E tem, claro, nas empresas; porque existem pessoas nas empresas. E pessoas são a única condição ambiental indispensável para a reprodução do preconceito. Nos últimos anos surgiu, por exemplo, uma espécie de preconceito no meio empresarial, mais especificamente na administração de recursos humanos, que é a rejeição a priori do profissional com mais de quarenta anos de idade.
O quarentão, candidato a uma vaga qualquer, pode e deve desistir de antemão à sua pretensão de colocação profissional. Ora, exatamente porque ele já tem mais de quarenta anos. E o que isto significa? Nem Deus sabe. E, claro, muito menos um certo tipo de recrutador: papagaio de repetição, este recrutador só sabe que o candidato tem mais de quarenta anos e, por isso mesmo, não pode ser contratado. É a política da empresa, ora! Mas se perguntarmos a razão de ser desta política da empresa (ora!), ele, autômato burocratizado não saberá responder. Basta que ele saiba, e isto o satisfaz plenamente, que a política da empresa é esta. E ponto. Para ele, políticas empresariais são, por definição, indiscutíveis (mas que cara teimoso você é! Pare de querer discutir a política da empresa!).
Gente assim cabe com exatidão de mecanismo de relógio suíço na definição TÍTERE PROCESSIONÁRIO, criada por Laurence Peter, a maior autoridade mundial em estudos sobre a incompetência. Títere é sinônimo de fantoche, marionete; processionário é aquele que segue, apenas segue. Há, para exemplificar, uma espécie de larva que segue a da frente. Colocadas em círculos, estas larvas processionárias ficam dando infinitas voltas umas atrás das outras até morrerem de fome, mesmo quando, como se fez em várias experiências de laboratório, havia alimento em abundância ao alcance de todas.
O títere processionário, portanto, é um verme que apenas segue e, assim, se manipula com facilidade. Como sabemos, há muitos deles nas empresas e demais organizações humanas. Tem da portaria até a presidência. Porém, quando na administração de recursos humanos, passam por uma metamorfose peculiar e de origem desconhecida para assumirem a forma mais letal que se pode verificar na espécie dos títeres processionários: a forma que age sob estímulo exclusivo do preconceito, aquela opinião sem julgamento à qual já nos referimos, com poder de determinar a vida de pessoas. Visto que o títere processionário não pensa, ele é evidentemente incapaz de julgar. E dá-se a um sujeito destes o tal “poder de vida e de morte” sobre profissionais que cometeram o terrível engano de não contrariar a natureza das coisas e, imprevidentes, deixaram o tempo passar, atingindo os quarenta anos. Pela lógica titeriana-processional, nada mais justo que punir estes ineptos que não combateram com vigor o passar dos anos. E ousaram envelhecer. Já que o profissional não foi capaz de fixarse na idade dos trinta anos, também não será capaz de fixar-se na empresa ou num projeto qualquer. Corte-se-lhe, pois, a cabeça.
Mas os sujeitos que mudaram o mundo o fizeram, em sua esmagadora maioria, após completarem bem mais do que quarenta anos. Leonardo da Vinci, Isaac Newton, Gutemberg, Sidarta Gautama (vulgo Buda), Churchill, De Gaule, Henry Ford, Mahatma Gandhi, Roger Mila (que, até uns cinqüenta anos, jogou um bolão pela seleção de Camarões)… dê uma olhadinha em qualquer livro de história e confira. Só Jesus Cristo não conseguiu; certamente porque não lhe deram chance de mostrar do que ele seria capaz após os quarenta (se aos trinta e três já era um terror, imagina aos quarenta!). Talvez os romanos fossem os precursores desta atual tendência da administração titerianoprocessional de recursos humanos: “Está a caminho dos quarenta?!? Crucifica o cara!”
Falei com um executivo europeu e ele disse que lá no velho continente idade não é fator de importância crucial. O que conta é o mix de vontade-competência-experiência.
Então, estamos, no Brasil, criando know-how para exportação. Preconceito globalizado, mas made in Brazil! Nossos preconceitos em relação à idade nos fazem esquecer de sujeitos como Lee Iacocca, Antonio Ermírio de Morais e mais um punhado de sessentões, setentões e oitentões que, ainda hoje, estão à frente de seus barcos, são produtivos, arrojados, geram empregos e fazem suas empresas dar muito lucro.
Por outro lado, sobre os idiotas que recusam um profissional por questão etária, estes não poderão jamais ler algum texto primoroso que Manuel Bandeira ou Cora Coralina, ou Goethe ou Ernest Hemingway, tenham escrito, idosos, no final de suas vidas: por coerência, devem recusar tudo o que estes e outros tantos velhos desprezíveis tenham produzido. A propósito, quando escreveu seu Dicionário Filosófico, Voltaire já tinha uns oitenta anos.
Também convém que alguém conte a estes sujeitos (por pura sordidez e maldade) que logo, logo eles mesmo chegarão aos… quarenta!
Esta gente que cultiva opiniões sem julgamento o faz porque, evidentemente, não é capaz de julgar coisa alguma. Assim sendo, também não serão capazes de tomar, com equidade, alguma decisão que exija mais do que alguns neurônios e raciocínios primários. Devemos desprezá-los, embora com compaixão. E devemos, por pura lógica, desprezar também, e principalmente, quem lhes confiou o cargo que exercem.








February 4, 2008 at 2:36 am
Mais verdade doq isso nem 2 vezes isso.
Abracos.
February 4, 2008 at 7:40 am
O que dizer….chocante e ao mesmo tempo maravilhoso esse texto.
Sobre preconceito, eu nunca imaginei o que seria, é algo que muitas vezes não sabemos que estamos sendo vítimas, mas sim, a todo instante, e como diz nesse texto.., até dentro da própria casa. Digo isso pois tenho duas filhas já adultas, eu aos 45 sinto o preconceito e o pior, aqueles fenômenos do tempo que nos deixa menos belos diante do espelho, ainda posso dizer que tenho boa saúde, não bebo, não tenho barriga, nenhum vício fora é claro gostar tanto de música e dos iPODS do nosso comandante, a única coisa mesmo que não posso deixar de sitar é uma clareira que existe no topo das minhas idéias..rs, fora isso tudo, eu ainda acho que se fosse perfeito fisicamente ainda sim o preconceito existe, só pelo fato de você ser PAI e ter mais de 40, é certo isso.
A poucos dias eu recebi em meu e-mail através do site do CATHO (agência de empregos), relações de ofertas de emprego, fui dar uma pesquisada na minha área e em um dos anúncios estava assim “idade..até 38 anos”, ou seja, preconceito puro.
Sinto o preconceito a todo instante, dentro da empresa então, talvez por dois motivos, a experiência tanto de vida como de profissão, isso assusta as outras pessoas, dá a impressão que você vai tomar o lugar delas, ao invez de pensar que podemos ser um grande amigo e parceiro, mas o pior mesmo é quando você acha que está fazendo amigos, você está mesmo servindo de professor para encinar e depois ser dispensado, já passei por isso duas vezes, muito chato para não dizer outra coisa.
Talvez esse preconceito todo por pessoas mais experientes é o fato que elas tem uma visão diferente da vida, sabe exigir e afrontar os chefes sem medo, enquanto que o mais novo tolera mais tempo, vai levando, afinal, não tem família e u propósito melhor de qualidade de vida, pois o novado ainda está começando, não paga aluguél e não tem família.
Obrigado Julino por esse texto, uma grande semana para você.
February 4, 2008 at 12:56 pm
Grande Julinho Mazzei por mais este texto que [e a mais pura verdade do que acontece nos dias de hoje .
Estou passando exatamente por essas coisas de emprego , e o Ismar descreveu muito bem , faco das palavras dele as minhas .
Estou desempregado a mais de 1 ano , e quando vou a entrevistas a primeira coisa que perguntam a exatamente a idade. Resumindo se voce ja passou dos 40 anos , faca o seguinte , compre um caixao , dispense mulher e filhos , sua experiencia profissional jogue na lata do lixo pois nao server para mais nada .
E tem mais uma coisa , existe muitas empresas porcarias de terceirizacao , que contratam voce por uma ninharia (te exploram) e te alocam em um cliente qualquer isto se voce tiver menos de 40 anos bem entendido , e cobram uma nota dessas empresas que aceitam esse tipo de coisa , porque ? , para tais empresas que pegam funcionarios de empresas terceirizadas e uma otima coisa do ponto de vista da empresa, pois nao precisa se preocupar com as leis da CLT , quando o funcionario nao serve, simplesmente ligam para empresa e dizem troca tal funcionario , nao precisam fazer homolagacao , nem tem que pagar a multa de 40% do FGTS e por ai vai .
Veja o exemplo do Sr. Lula , quando nao estava no poder qual era o lema deles (govero atual do PT) , todos estao errados , era contra tudo e contra todos, e agora que estao no poder estao fazendo tudo que os outros governos fizeram e bem pior , ja ouvi dizer que estao querendo acabar com a Multa do FGTS e outras coisas mais.
Voce tem mais de 40 anos como eu , quem mandou voce chegar nos 40 anos , e olhe que dizem que a expectativa de vida do brasileiro aumentou , isso e bom ??? , acho que nao para o governo , pois a previdencia vai quebrar, entao o que fazer ??? , aumenta ai a idade minima para se aposentar , mas aumente mesmo hein …. , a pessoa para se aposentar tem que estar ja com o pe na cova de preferencia .
Dinheiro tem e muito , basta que parem de roubar, e facam uma fiscalizacao rigorosa nas contas publicas ( isto e um mero sonho) , para ver se nao sobra dinheiro para fazer muita coisa .
Abracos a todos que frequentam esse blog the best .
Reinaldo Lima
February 7, 2008 at 7:50 am
Sábado passado fui ao cinema ver o filme EU SOU A LENDA.
Julinho, lembrei de você vendo esse filme…rs o único sobrevivente naquela cidade tinha um companheiro que era um cão da raça pastor. Sobre esse filme, para quem não viu mas que sabe mais ou menos do que se trata, eu diria que nessa hora não dá para ser preconceituoso.
Acho que para todas essas pessoas preconceituosas, deverião assistir esse filme. Não somos nada diante de um problema como esse filme retrata se um dia ocorrer uma devastação em massa, ou por vírus ou por força da natureza. Mas o lado bom foi ver o companheirismo dos dois, um home e o seu bravo cão.
Um outro detalhe bem legal, imagine essas situações na beira das estradas ou até mesmo dentro da cidade, nas marginais, quando ocorre um acidente com caminhão que tem uma carga, exemplo, pasta de dente. Esses dias teve um acidente desse, acho que em São Paulo. As pessoas levando caixas e caixas desse produto, quanta ganãncia!!!!
Nesse filme, o ator vivendo na cidade, só ele e o cão, ele periódicamente pegava um filme na locadora, só que um detalhe, ele devolvia o anterior e pegava outro, nessa caso o que eu estou querendo dizer é que o cara sabia que era só ele, não existia mais ninguém além é claro dos mutantes. Diante dessa cena, acho que foi um bom exemplo para mostrar que é simples devolver o que não é seu para o verdadeiro dono, nunca se sabe o dia de amanhã, e para quem não foi ver o filme, não posso contar o final, pois é surpreendente, mas esse detalhe achei muito importante.
Julinho, espero que isso nunca ocorra com o nosso planeta, pelo menos enquanto estivermos vivos, pois apesar dos nossos defeitos, pelo menos adoramos a natureza e os animais e claro, a música não pode parar.
February 8, 2008 at 7:15 pm
Que texto inteligente e verdadeiro, Julinho!
Cara, como é bom vir aqui no blog de vez em qdo e encontrar essas pérolas. Vc nem faz idéia de como esses títeres infestam a vida da gente, especialmente aqui no Brasil.
E olha só a coincidência – Ontem, conversando com um motorista de táxi, discutíamos exatamente sobre isso – o motorista, já um senhor de mais de 45 anos (calculei eu), me contava que é ex-funcionario da EletroPaulo. Como não conseguia mais emprego devido a sua faixa etária, teve de apelar para o táxi, a fim de garantir o sustento, e a formação universitária de seus 2 filhos. – “Graças a Deus, esse ano termino o meu último compromisso: meu segundo filho se forma esse ano”, me contava ele.
Eu tbm já estou pra ser pego na curva – 3 semanas atrás, desempregado (agora não mais), participei de uma entrevista de seleção em uma dessas “muitas empresas porcarias de terceirizacao” na área de TI (sou programador, vivo essa vida, que o Reinaldo Lima muito eloquentemente descreveu acima), e após vários dias de espera, soube da “pessoa” que me entrevistara, que o cliente sequer quis me conhecer – tive de escutar o seguinte: “A pessoa gostou muito do seu CV, sua experiência é boa, porém a sua idade para ESTE cargo, está um pouco acima do esperado por eles”.
O cliente, faço questão de divulgar aqui: Banco “fuckin’ almighty” Itaú.
A minha idade: faço 37 amanhã (e já me sinto como se tivesse 57 – mas com cara e “corpinho” de 27, rssss… só rindo, pra não me desesperar…!)
Faço questão de passar esse texto pra frente, com a sua permissão (vou postar no meu blog).
Um forte abraço, Julinho!
February 9, 2008 at 3:50 am
Fantástico o texto! Depois de ler fiquei a refletir,e me perguntei se existe alguém no mundo que não tenha um preconceito??? Por menor que seja,será que existe alguém que não tenha sequer um??? Creio que não! Fiquei pensando aqui nos “possíveis” preconceitos que eu possa ter! É…é bom a gente olhar para nós após um texto como esse,caso contrário ele de nada nos servirá,além de um vago elogio para quem o escreveu! Então,cortando na carne(hehehe) vou citar aqui um.Digamos que o Julinho(vejam bem…o Julinho Mazzei)produza um pagode! Letra,música,arranjos e tudo mais! Antes de ouvir(ao saber do fato) creio que direi: “Nossa…não ouvi,mas certamente não gostarei.” Isso é um conceito emitido antes de conhecer o trabalho,portanto um pré-conceito! Outro fato para ilustrar isso é uma reflexão daquele conceito de “Brega”,no que tange a música. Peninha,considerado um cantor “brega”,compôs uma música chamada “Sozinho”. Bastou Caetano Veloso interpretá-la que a mesma tornou-se chique! Isso é o supra-sumo do preconceito!