As Carrocinhas

February 27, 2008

 

Os cães são nossos maiores amigos e o maior presente que a natureza nos deu. Eles nos amam incondicionalmente, sua fidelidade é sólida como as mais profundas fibras de suas heróicas almas (que sacrificam sem hesitação suas vidas para defender seus donos), sua alegria e seu carinho são lições que a cada dia nos ensinam a ser melhores e a viver melhor.

Quando penso sobre isso, é difícil compreender o que fizemos para merecer tamanho presente… Mas deveríamos agradecer a Deus e à natureza por ele, e mostrar permanente respeito e carinho por esses seres infinitamente alegres e amigos, e que amam tanto a vida, e que a cada dia nos ensinam a amá-la também. Porém, ao invés disso, criamos “centros de controle de zoonoses”, as malfadadas “carrocinhas”, que capturam os cães pelas ruas e os assassinam com bestial frieza!

Deveríamos parar para refletir. O que, afinal, nossa espécie está fazendo na Terra? Aonde queremos chegar?

Não nos contentamos em estar destruindo cada um dos ecossistemas do planeta, não nos contentamos em nos comportar como verdadeiros playboys mimados, que — sem qualquer consciência ou reconhecimento do fato de existirem outros seres — dilapidamos a herança que a natureza nos deu, numa verdadeira orgia de inconseqüência.

Além de tudo isso, ainda tratamos nossos melhores amigos, os cachorros, como se fossem resíduos descartáveis, não seres brilhantes e repletos de vida.

Vi outro dia na TV um cara afirmando que a hostilidade da população contra a carrocinha é devida à “ignorância”, pois a população não sabe que os cães podem “causar doenças”. Pobre criatura vaidosa. Do alto de seu pedestal, ele nem sequer cogita a hipótese de que o ignorante possa na verdade ser ele próprio. A tal “população” pode perfeitamente saber da possibilidade de um cão transmitir doenças — bem como da possibilidade de outros seres humanos transmitirem doenças — mas nem por isso precisa apoiar a idéia de que se deva sair por aí praticando extermínios.

Aquele infeliz nem percebe que seu raciocínio brota do mesmo campo de onde brotaram as maiores monstruosidades da história humana. A mente separada do coração é um mecanismo defeituoso e pervertido, que pode levar para absolutamente qualquer direção e fazer estragos sem qualquer limite. Não existe nada mais ignóbil do que a pseudo-sabedoria, que tenta mostrar a “lógica” de atos monstruosos através de argumentos “científicos”, mas sem discutir os aspectos éticos da questão.

A solução para o problema das carrocinhas, porém, não é de modo algum hostilizar os funcionários que nelas trabalham (muitos dos quais também sofrem com a matança dos animais). A solução é exigir dos políticos que a matança seja proibida por lei, e que em todo o país o extermínio seja substituído por programas de esterilização e adoção, como muitos que já existem em curso.